Museu
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As estimativas mais tímidas diriam algo em torno de centenas de coisas. O que é um punhado. Aqui no momento pedaços de um painel egípcio, pequenos pedaços. A disposição na parede sugere que o que se tem aqui não é nem vinte por cento do original. Mas se forem os pedaços certos.
Esse touro (na sala seguinte) segurava alguma coisa no palácio de Dario. As mãos tão quebradas, não há nada em cima dele, mas os cotovelos sugerem a intenção de segurar alguma coisa. Ele parece ainda muito esforçado, mantendo aquela pose por dois mil e quinhentos anos, cansado. A posição do pescoço assim parece meio incômoda. Dario pessoalmente talvez tenha pensado coisa parecida, mas talvez não. Subimos (eu a japoneses que não conheço) uma escada larga e suja, vazia, e encontramos quadros do século dezessete. Do tamanho das paredes, do tamanho de prefeituras (pequenas prefeituras, mas ainda assim). Vários casais de idade na frente deles, nacionalidade européia genérica, bronzeado leve, mãos cruzadas na cintura, parecem dizer para aquele excesso, aquela efusividade explodindo de religião ou nacionalismo, repetida ao longo de um corredor imenso, imenso, parecem dizer: “ora”. Eles sorriem e dizem “o mundo não é assim não”. O moço limpando os corredores também, com fones de ouvido. Lá fora, as árvores empertigadas e surpresas, lívidas em uma luz branca. Do outro lado a janela dá para um pátio interno do museu, que é cheio de esculturas de eras diferentes, uma coisa. Uma estátua grande no centro, de Odisseu (eu prefiro Odisseu) impressionado com alguma coisa que se quebrou fora da estátua, o que torna a situação quase (você vê na expressão do povo em volta) moderna! Muita gente em volta desenha atentamente a estátua. Eu prefiro não checar nenhum dos desenhos, manter-me otimista.
Há uma intervenção contemporânea ao longo de toda a coleção. Misturada à cerâmica grega e pintura holandesa do século quinze, interpretações e 'releituras' de algum artista moderno. No Balzac do Rodin há alguma gracinha com as obras completas do Balzac, a comédia humana toda lá editada por trás de vidro ou plástico parecido com vidro. O artigo da Wikipédia em várias línguas impresso em alta definição (talvez alta demais?) na parede. Algo que talvez seja sobre aquele ali não ser o Balzac mesmo, ser uma estátua do Rodin, e afinal o que é o Balzac mesmo, hoje em dia? Uma menina morde o interior da sua boca, pensando, como se uma resposta fosse esperada dela.
Um homem oriental senta cansado em um canto, uma cadeira pequena, as mãos nos joelhos. O seu grupo está muito adiante, sendo explicado em japonês que Monet pintou todos aqueles quadros da mesma catedral ao mesmo tempo. Eu não sei japonês, mas a entonação não permite que o guia esteja dizendo qualquer outra coisa. E a reação do grupo é animadinha, que agora entende, agora tira fotos, na luz desse conhecimento. Fotos conscientes.
Eu procuro o Cézanne, que normalmente não se deixa afetar. Ele também está rodeado de movimento, e luzes e coisas. Há uma sala escura onde um filme é projetado, fora dela uma plaquinha Fight, 2004, 29 min. Lá dentro sentam crianças entediadas no chão. O vídeo é de dois bonequinhos bem feitos brigando devagarzinho, uma luta coreografada e pra sempre protelada de qualquer clímax, uma que te lembra animes e filmes dos anos setenta. Um deles é claramente o Cézanne de um dos auto-retratos mais famosos, o outro parece o Wallace Stevens. Eles lutam pela terra.
Claro, eu concordo sem ninguém me ver, no escuro.
Uma garota explica em alemão baixinho no ouvido do namorado o que tá acontecendo. Será que ‘pastiche’ em alemão é ‘pastiche’? Eu, pessoalmente, não tenho nenhuma mulher pra me explicar o vídeo no ouvido, nem em alemão.
O vídeo deve estar cheio de referências. Eu entendo o coelho, as peras alternando de um para o outro. Mas se houver referências a, por exemplo, The Anatomy of Melancholy, eu não vou entender (e não há, até agora, nenhum motivo para imaginar que haveria). Ou Clarissa (tampouco, menos ainda). Eu acordo de noite às vezes suando frio por não ter lido nenhum dos dois. Mas tem a minha idade, eu me explico, tem a fadiga. Eu me imagino então em uma super bacana maturidade, digamos trinta e poucos anos, comendo um sanduíche de madrugada na minha cozinha, depois de certamente ter lido os dois livros, e vários outros. O sanduíche que vou ter feito, as mordidas estratégicas e estudadas no intratável escuro. Ah.