Tuesday, June 29, 2010

Die lehre der Sainte-Victoire
-
Os gálicos (literais e derivados) que comentam toda ficção realista moderna com risinhos de escárnio não entendem nada. As reclamações mais habituais sugerem que o que ocorre é um seguimento automatizado de linhas tradicionais programáticas simplérrimas, uma ingenuidade tremenda que se acha próxima de alguma forma objetiva de apresentar a realidade, mas na real só envolve a aplicação insciente de umas fórmulas burguesas aborrecidas, ignorantes de viradas e reboladas linguísticas, formidáveis limiares ultrapassados de maneira definitiva por gente assim inteligentíssima. Do tipo olhem-só-para-eles-acham-que-a-"realidade"-se-configura-assim-com-palavrinhas-que-remetam-a-objetos-e-lineariedade-e-um-universo-com-atualidade-apreensível-e-personagens-com-interioridade-e-agência-material-circunscrita-à-subjetividade-européia, tadinhos.

(como se certas medidas do fantástico, de pastiche pop, de fragmentação, de polifonia , etc, não se prestassem todas ao mesmo processo de formulação, ou o parti pris supostamente mais subjetivista trouxesse atestado de originalidade e complexidade).

Nenhum autor realista interessante apresenta uma cosmologia tão simples, tão inequívoca. uma impressão de realidade tão aborrecida. Nem uma Ann Beattie da vida. Essas convenções não se apresentam tão imediatas assim, são sempre renegociadas, repostas com o estabelecimento de qualquer voz minimamente autêntica. Não que todo mundo seja um Cézanne (um Henry James), mas o erro - ou a ingenuidade - é achar que realizar o mundo consegue ser simples. Nem querendo. Isso não existe.

6 comments:

Diego said...

Deutsch rules!
Mias futebol aqui, por favor.

andreis passarinho said...

(:

Anonymous said...

Este primeiro parágrafo é uma alusão bem direta a um trecho de uma crítica que li, acho que do Borges ou em algum lugar. Você sabia disso ou tá respondendo sem saber?

andreis passarinho said...

muita gente fala isso, até exat. nesses termos, mas acho que não o borges. ele tampouco gostava de realismo (na verdade, nem gostava de romances), mas por motivos bem outros.

omar salgado said...

**total**

em notícias não-tão-relacionadas, o orwell critica um verso do "spain" do auden assim: "it could only be written by a person to whom murder is at most a word . Personally I would not speak so lightly of murder.", lembrando que orwell já levou um "tiro no pescoço".
pra demonstrar que não falo mal de rinocerauden, apresento também uma crítica do babel ao nabokô:
"He can write, but he's got nothing to say."

até aí é gente que já lutou na guerra reclamando dos que vivem menos intensamente (exemplos de escritores que lutaram em guerras: tolstoi, hemingway, ésquilo, egill skallagrímsson)

mas acho que vale notar que gosto muito do babel, mas nenhum parte dos relatos de guerra dele me segurou como um momento do pnin lavando um prato.
será que é porque eu já lavei pratos mas nunca vi uma baioneta?
baioneta é, certamente, acima de tudo uma palavra, pra mim.
buy-o-neta
(só quis partilhar o lance do orwell porque acabei de lê-lo)

andreis passarinho said...

boto fé que nem é por que tu nunca viu uma baioneta, mas isso também faria sentido.

e vamos todos pausar e pensar em como é tomar tiro no pescoço.

*pausa*

não sabia que tolstoi tinha guerreado. as partes de guerra&paz do bróder perdido no meio da batalha são bastante muito críveis, mas eu achava que era só imaginação foderosa.